sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eu procurava

Procurava incansavelmente algum jeito de me sentir viva novamente, de me sentir feliz. Mas algo dizia que isso seria impossível...
Impossível... Dependendo do ponto de vista, isso não existe, e pra mim, até um tempo atrás, isso não existia para mim também, mas hoje eu já não posso dizer o mesmo.
As noites passadas sobre o campo de futebol no clube do condomínio, observando as estrelas, se tornavam noites angustiantes agora, sem ele. E assim se tornou a minha vida, angustiante.
É claro que eu deveria ter imaginado, ao menos uma vez, que isso iria acontecer, afinal, não é todo dia que você encontra o amor da sua vida e não é todo dia que você descobre que ele tem dia pra morrer.
Quando sua doença chegou ao auge, resolvemos aproveitar tudo ao máximo, e cada dia, realmente poderia ser o ultimo. E foi exatamente isso que aconteceu.
O dia mais feliz que estive com ele ao meu lado, foi o último, e por incrível que pareça, eu não tenho lamentações.

Voltei então a procurar algo que me deixasse feliz, mesmo que por segundos, e sorri assim que o vi.
Era uma carta, a primeira carta que ele escrevera para mim... Eu a peguei rapidamente, debaixo daquele monte de papel e a apertei forte contra o peito.
Senti a essência dele ali comigo, senti ele ali comigo e sorri lendo o primeiro " Eu te amo " que ele havia escrito para mim. Fechei os olhos e me perdi na fantasia de ter ele para mim, mais uma vez. 

O mundo

da voltas e voltas e eu me perco novamente. Caio de novo, dentro do mesmo poço...
Você se lembra dele? Foi nesse mesmo poço que eu tranquei os meus demônios, e também aonde tranquei você.
Agora, ele parece mais obscuro que nunca e os demônios aparentam estar mais fortes também.  
Respiro fundo e começo a correr, tentando fugir dali, voltar para a superfície, mas então escuto a sua voz.
Ela me chama pra você novamente. O sentimento vem a tona e me domina por completo. Quando dou por mim eu já estou parado a sua frente. 
Te vejo trancafiada e minha maior vontade é de solta-la.
Coloco a mão no cadeado que já está enferrujado por causa dos anos e quando vou abrir pra soltar você novamente, escuto um sussurro. Viro para trás e vejo outra cela, com um dos meus demônios dentro.  Respiro fundo sabendo que no momento que te libertar, os meus demônios virão a tona novamente... Mas é tudo tão tentador, ter você de volta é tentador...
Eu tento sair dali, tento correr, mas então escuto o seu choro e então sinto meu coração partido novamente. Agora eu já não aguento mais, abro rapidamente o cadeado e escuto quando ele cai no chão, o barulho dele se mistura com os seus choros e com o abraço forte que eu lhe dou, sussurrando em seu ouvido que tudo ficaria bem novamente.
Começo a escutar então o barulho dos outros cadeados caindo e sei que os demônios estão soltos novamente...